Não sou um profundo entendedor de cinema e já até tentei discorrer sobre o assunto como uma proposta de apresentação para um congresso. Não consegui elaborar o texto por inteiro, mas como se tratava apenas em mostrar as minhas impressões comparativas de um poema do qual eu era familiarizado e que fora traduzido em película, aliado a um bom auxílio financeiro da minha universidade, viajei até o local do evento e expus o que tinha para dizer. Desceram o pau em mim.
Dessa vez não quero fazer comparação alguma. No entanto, nada me proíbe de colocar o meu posicionamento diante o novo longa de Pedro Almodóvar, que se chama A Pele que Habito. Nunca assisti a nenhum filme do diretor que não fosse esse, mas só o fato de ele ter feito lembrar-me de autores que julgo serem os meus favoritos, resolvi fazer de tal filme o meu primeiro alvo de crítica.
Edgar Allan Poe escreveu "O Barril de Amontillado", uma das suas pequenas estórias mais célebres. Logo no primeiro parágrafo, ele prontamente coloca a motivo da sua narrativa: "Afinal, deveria vingar-me. Isso era um ponto definitivamente assentado, mas essa resolução, definitiva, excluía ideia de risco. Eu devia não só punir, mas punir com impunidade. Não se desagrava uma injúria quando o castigo cai sobre o desagravante. O mesmo acontece quando o vingador deixa de fazer sentir sua qualidade de vingador a quem o injuriou".
O que Poe quis dizer com isso? De uma maneira menos elaborada, parafraseio: se um vingador vinga e sai imune, a vingança foi válida. Porém, se o vingador vinga, e quem foi vingado replica a vingança, a vingança inicial não vale, e certamente o triunfo é daquele que cometeu a segunda vingança.
Almodóvar certamente bebeu dessa fonte ao compor sua obra. Mas também existe um pouco do mais famoso escritor brasileiro: Machado de Assim. Machado escreveu o notável conto “O Alienista” e outro não tão famoso chamado “A Sereníssima República”. Ambos narram sobre homens que não medem escrúpulos para conseguirem através da ciência um triunfo pessoal e próprio. Tema que não é nenhuma novidade.
O aspecto vingativo de Poe mais a ciência acima de todas as coisas resultam em A Pele que Habito. Um homem, que movido pelos instintos da vingança e pelo seu conhecimento cientifico, monta o seu Frankstein. Sim, existe também um pouco de Percy Bysshe Shelley. É uma película sinistra, grotesca mas também muitíssimo atraente e bela, é que segundo Rafael Amaral, mostra de forma breve um “homem que insiste em brincar de Deus”.
fiquei com vontade de ver o filme...
ResponderExcluirO filme é Assombrosamente Maravilhoso. E parabéns pela elaborada crítica. isso é raro!
ResponderExcluirman, gostei muito da associação com 'o barril de amontilado', um de meus preferidos de poe. eu acho engraçado que o personagem do filme acaba tendo sua vingança completa (que a meu ver era fazer o cara sentir o que a filha sentiu: como é ser estuprada), mas sem querer, de uma maneira deturpada; e acaba se apaixonando, o que, como você disse, invalida a vingança.
ResponderExcluirum amigo fez também uma rápida comparação do filme com frankenstein: http://ultimobaile.com/?p=3412 .
(uma rápida correção: frankenstein foi escrito por Mary Shelley, que era esposa do poeta Percy Shelley.)
valeuz!