Uma das obras que mais me marcaram durante a minha humilde e pobre bagagem de leituras seguramente foi aquela que se chama Abusado – O Dono do Morro Dona Marta (RECORD, 2004, 12ª ed.), escrita pelo repórter investigador Caco Barcellos. Trata-se de uma composição extensa, mas que de forma alguma faz o leitor sentir os olhos cansados ao virar das páginas. Tive a oportunidade de o ler durante duas fases da vida: na escola e na universidade.
A primeira foi encanto na certa! O texto não apenas relatava ao jovem do 2º ano científico a história (história mesmo) de um traficante que aos poucos foi ascendendo desde o menor cargo no crime até o de proprietário geral da boca, e nem de confrontos homéricos entre policial e bandido. Ele ia muito além. A solidariedade e a compaixão também são temas relevantes. O protagonista, para se ter uma ideia breve, era leitor do Sr. Guevara, e com o revolucionário argentino, Marcinho V.P. não apenas aprendeu táticas de guerrilhas que driblavam as autoridades fardadas nas invasões ao morro. Ele aprendeu também dezenas de princípios que exigem como prioridade o verbo compartilhar, que é um dos mais bonitos que existem.
A segunda leitura, além do encanto, se deu com um rigor mais científico. A obra é um prato cheio para várias vertentes acadêmicas não só no cenário das Letras. Inicialmente, ela brilha aos olhos dos que trabalham com literatura marginal, por ser, claro, uma literatura marginal. Depois, pode-se enquadra-la aos estudos da sociolinguística pelo fato do autor priorizar nos diálogos uma linguagem excepcionalmente carioca, com suas gírias e peculiaridades. Por fim, o Direito, as Ciências Sociais, a História também estão também habilitadas a beliscar dessa fonte para levantar questionamentos do tipo: até que ponto a construção miserável de um ser é justificada pela crueldade dos seus atos na posterioridade? Em outras palavras, o homem é, ou deve ser, um produto do meio onde ele se desenvolve?
Abusado – O Dono do Morro Dona Marta é um texto extremamente leve e de sentenças curtas, mesmo com os seus trinta e oito capítulos que resultam em 559 páginas. O estilo da língua usada por Barcellos é simples e clara ao quadrado, ou seja, não exige um atenção redobrada. Trata-se de um trabalho com uma referência do tamanho de uma tese de doutorado, que vão desde recortes de jornais até documentos acadêmicos. Após a leitura de Abusado, além de vislumbrar as aventuras vividas pelo protagonista que em vários momentos beiram o improvável, você não consegue classificar se tal composição é uma biografia de um fora-da-lei, ou novela romantizada como Capitães da Areia, ou um documentário investigativo.
Leitura maravilhosa, sem dúvida! Junto ao Rota 666, do mesmo autor, podemos vislumbrar um pouco dessa sociedade que está em "silêncio". Sim, aspas enormes para esse silêncio gritante... Afinal, a galera do asfalto não escuta e nem quer escutar ou entender ou refletir sobre tal termo (ou seria vivência social?): MARGINAL, termo que por si só provoca terror, uma pena! O Marginal Marginalizado deve ser visto não só como artefato literário, mas, também, como contexto social num pais tão desigual e injusto. Ficar se fingindo de surdo não mudará nada... Uma outra leitura que ajuda a desmistificar o Terror do dito Marginal é o livro de um cara chamado Ferrez - Capão Pecado, leitura lucida sobre uma realidade que invade e inunda uma sociedade cheia de medos e frescuras para aquilo que não está branco e rico!
ResponderExcluirÓtima publicação, Treta!