sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Como Poe será apresentado em 2012


Edgar Allan Poe é um dos escritores mais conhecidos e mais influentes mundialmente. Os títulos que podem ser atribuídos ao norte-americano são vários. Além de ter tido seus contos e poemas traduzidos em outras línguas por outros grandes da literatura como Baudelaire, Fernando Pessoa e Machado de Assis; coube ao Sr. Poe ser o pioneiro em materializar na literatura um personagem que faz uso de um método para solucionar problemas misteriosos. Em outras palavras, foi Poe o inventor da literatura detetivesca policial, e se ele não tivesse dado “vida” ao seu Auguste Dupin, provavelmente não existiriam outros notáveis autores como Conan Doyle e Agatha Christie.

Acontece que a influência do Sr. Poe não se limita só ao cenário literário. Desde os primórdios do cinema que a obra do norte-americano vem sendo adaptada e trazida em massa para o audiovisual. O primeiro é datado em 1908, poucos anos após os irmãos Lumière revolucionarem o mundo das artes. Até então conta-se aproximadamente duzentos filmes, e 2012 não poderia ser um ano sem um longa-metragem baseado nos trabalhos do poeta. O diretor James McTeigue, do aclamado V for Vendeta (2005), lançará pela metade do ano The Raven, filme que carrega como título a obra-prima do autor e que o apresentará interagindo dentro de sua própria obra.

Trata-se de um projeto ousado e interessante. O  IMDB sucintamente diz a fictionalized account of the last days of Edgar Allan Poe's life, in which the poet pursues a serial killer whose murders mirror those in the writer's stories. De uma forma mais elaborada e pela impressão que tive do trailer, posso afirmar que não há mistério algum na sequência dos eventos da narrativa, a não ser descobrir quem é o serial-killer. O detetive acha que Poe é o assassino, daí Poe foge. Então, para provar a sua inocência, Poe atua também como um detetive as escuras. No final, Poe descobre quem é o assassino, e daí morre, e morre como se fosse o assassino, pois o policial não descobre quem é o criminoso.

Apesar de toda essa baboseira em mudar uma coisa como ela foi de fato, quero dizer, os últimos dias de Poe jamais foram da forma como propõe James, gostaria de pontuar um fator que achei de extremo valor em sua narrativa fílmica. Digo que foi inteligentíssimo da sua parte em selecionar alguns contos de Poe e colocar um único responsável e fazê-lo como assassino em série. A própria literatura do escritor sugere essa interpretação, pois a maioria das suas shorty-stories são relatadas em primeira pessoa do singular e geralmente os que comentem os crimes não dizem os seus nomes e nem determinam uma data especifica.

No entanto, existe um ponto que achei de tamanha ingenuidade estética e de aparente desespero financeiro. Nunca assisti ao Sherlock Holmes (2009, 2011), com Dowley Jr. e Jude Law, mas sei que fez um sucesso estrondoso e que rendeu milhões, e sei que narra estória de dois detetives. James está fazendo a mesma coisa, isso já foi dito. É claro também que ele deseja notabilidade e dinheiro com o seu projeto, mas creio que ele não precisava escolher um ator para encenar o seu personagem que apresentasse o mesmo aspecto físico de Law para ganhar pontos com o público.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Uma leitura em dois momentos diferentes


Uma das obras que mais me marcaram durante a minha humilde e pobre bagagem de leituras seguramente foi aquela que se chama Abusado – O Dono do Morro Dona Marta (RECORD, 2004, 12ª ed.), escrita pelo repórter investigador Caco Barcellos. Trata-se de uma composição extensa, mas que de forma alguma faz o leitor sentir os olhos cansados ao virar das páginas. Tive a oportunidade de o ler durante duas fases da vida: na escola e na universidade.

A primeira foi encanto na certa! O texto não apenas relatava ao jovem do 2º ano científico a história (história mesmo) de um traficante que aos poucos foi ascendendo desde o menor cargo no crime até o de proprietário geral da boca, e nem de confrontos homéricos entre policial e bandido. Ele ia muito além. A solidariedade e a compaixão também são temas relevantes. O protagonista, para se ter uma ideia breve, era leitor do Sr. Guevara, e com o revolucionário argentino, Marcinho V.P.  não apenas aprendeu táticas de guerrilhas que driblavam as autoridades fardadas nas invasões ao morro. Ele aprendeu também dezenas de princípios que exigem como prioridade o verbo compartilhar, que é um dos mais bonitos que existem. 

A segunda leitura, além do encanto, se deu com um rigor mais científico. A obra é um prato cheio para várias vertentes acadêmicas não só no cenário das Letras. Inicialmente, ela brilha aos olhos dos que trabalham com literatura marginal, por ser, claro, uma literatura marginal. Depois, pode-se enquadra-la aos estudos da sociolinguística pelo fato do autor priorizar nos diálogos uma linguagem excepcionalmente carioca, com suas gírias e peculiaridades. Por fim, o Direito, as Ciências Sociais, a História também estão também habilitadas a beliscar dessa fonte para levantar questionamentos do tipo: até que ponto a construção miserável de um ser é justificada pela crueldade dos seus atos na posterioridade? Em outras palavras, o homem é, ou deve ser, um produto do meio onde ele se desenvolve?

Abusado – O Dono do Morro Dona Marta é um texto extremamente leve e de sentenças curtas, mesmo com os seus trinta e oito capítulos que resultam em 559 páginas. O estilo da língua usada por Barcellos é simples  e clara ao quadrado, ou seja, não exige um atenção redobrada. Trata-se de um trabalho com uma referência do tamanho de uma tese de doutorado, que vão desde recortes de jornais até documentos acadêmicos. Após a leitura de Abusado, além de vislumbrar as aventuras vividas pelo protagonista que em vários momentos beiram o improvável, você não consegue classificar se tal composição é uma biografia de um fora-da-lei, ou novela romantizada como Capitães da Areia, ou um documentário investigativo.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Injustiça acadêmica: um texto em defesa do ensaio


A palavra principal é autoridade. A outra é qualquer trabalho que você produz dentro da universidade ao longo de uma graduação. Refiro-me, em especial, àqueles que se fazem necessários serem apresentados, e não defendidos, como ultimato para se sair de lá com o canudo nas mãos e com o título de profissional. O nome do trabalho não importa, seja monografia, TCC ou artigo, apesar de todos os três serem a mesma coisa. Esse modelo de atividade é muito comum dentro das escolas de nível superior não só no Brasil, mas em todo mundo. E é sempre o mesmo esquema: palavras introdutórias, a apresentação do método usado para sua análise, daí vem o desenvolvimento da sua análise baseado no método e por fim a conclusão.

Mas o que tem a palavra autoridade e essa espécie de trabalho em comum? Ora, eu digo tudo, e esse texto já é muito previsível desde a sua primeira frase. Para você discorrer sobre o assunto que você escolheu no seu texto, se faz impreterivelmente obrigatório você pegar emprestado às palavras dos professores mais conceituados da área e do universo e coloca-las em parceria com aquilo que você tem a dizer. Assim, me aparece o seguinte questionamento: a universidade é um lugar onde se formam ideias, contudo, como ser crítico se você sempre precisa estar de certa forma pegando carona no que os outros disseram?

Eu não estou condenando, não tenho autoridade, a esse modelo de produção cientifica. Ela deve existir e se faz necessária. Mas como eu sou de humanas, sempre me veio à cabeça, por exemplo, uma análise de texto por mim mesmo, seja ele em prosa ou em verso. Assim, outro levantamento. Por quais razões me levam a depositar as palavras de um alguém que já falou sobre um texto tal, se o próprio texto tal per si implica necessariamente tanto no meu ponto de vista como no do outro?

É por essa razão, por essa injustiça com o aluno da graduação de não poder colocar a primeira pessoa do singular como aquele que governa todas as falas do texto, por ele estar sempre se sujeitando a usar o “nós” como se não fosse só a sua opinião, que eu julgo o gênero ensaio como a melhor forma de escrita crítica. E acho que todas as universidades deveriam acolher esse modelo como alternativa de trabalho de conclusão de curso. O ensaio é um texto bem mais elaborado onde você pode colocar as suas, somente suas, impressões sobre o que se quer narrar. Mas então aparece o plágio, e o ensaio também requer citações das autoridades, no entanto ele não fica martelando sempre naqueles “segundo fulano, beltrano falou que, baseado em cicrano”. É você quem manda no trabalho.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Noel Gallagher, sua arma de amor capaz de furar o sol mais Emily Brontë

Uma das coisas mais bonitas de se ver é um casal completamente despojado de amor na mais sereníssima felicidade. Apesar de tal cena fazer brilharem os olhos, principalmente os das meninas, essa não é a forma de sentimento mais doce que pode existir entre duas pessoas. Uma prova disso, pelo menos trazido na ficção, é o clip da música “If I Had a Gun...” (New West Films, 2001), de Noel Gallagher & The High Flying Birds.

O cenário é rural, o motivo é o casamento, os personagens principais são três; um cowboy, uma noiva e o pai da noiva; mais um enredo que de misterioso não tem nada. Entretanto, o que vale, de fato, é a moral da narrativa: a dignidade de um amor paterno capaz de invalidar qualquer parâmetro em virtude da felicidade de sua filha. Não importa o que seja feito por ela e nem a decisão que ela quer tomar, o que é verdadeiramente relevante é ela estar feliz.

Não é nenhuma novidade, na história da humanidade e nem nas diversas manifestações de arte, a figura de pai viúvo dedicar unicamente a sua atenção e carinho a uma filha após o óbito de sua companheira. E aqui cabe um levantamento: qual é a forma e até que ponto esse amor exclusivo é colocado em prática? Será que todas as coisas que uma filha almeja devem ser cedidas em virtudes dos prazeres do mimo e da bajulação?

Se esse for o caso, colocar os prazeres do mimo e da bajulação como virtude primordial da relação entre pai e filha, o amor não seria verdadeiro. A consideração e a estima são colocadas de lado, e o que passa a acontecer não é uma construção de sentimentos, mas sim uma compra, da mesma maneira que se vai ao bar pagar por uma cerveja a uma pessoa que você quer ter como “amigo”.

Essa postura não foi a do personagem do clip. O pai, na sua dura condição, não bajulou a sua filha como desculpa pelo fato de ela não ter mãe. Ele precisou, no entanto, ensinar coisas à filha que só uma mulher seria capaz. E é por essa categoria de assumir a figura de ambos dentro de casa, que a fez compartilhar com ele as suas mais íntimas vontades, as suas dores mais avassaladoras e as suas paixões mais intensas.

E é por isso que ele abre mão do noivo que a filha escolheu na hora da troca de alianças. Ele sabia que a sua cria tinha pelo cowboy o mais puro e verdadeiro sentimento. Que o amor deles era uma arma capaz de furar o sol e derramar sobre eles tudo o que há de mais deleitoso. Ele deixou de lado todas as condições de valor, quer seja financeiro, moral ou estético, em virtude apenas do sorriso da menina.

Esse clip me lembrou de outra narrativa famosíssima da literatura inglesa. Refiro-me a Wuthering Heights (1847), o único romance de Emily Brontë. O motivo de tal semelhança é o casal Catherine e Heathcliff. A razão? Provavelmente o cowboyzinho e a filha do fazendeiro cresceram juntos na propriedade do pai dela, e possivelmente juraram um ao outro a eternidade juntos, assim como os dois personagens da obra inglesa. No entanto, o desfecho apresenta convergências. Aqui, o casal está pronto para abraçar a felicidade e gozar dela. Na novela, apesar da construção de sentimentos desde a infância, o amor é trocado pelo dinheiro.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Pedro Almodóvar, Edgar Allan Poe e Machado de Assis

Não sou um profundo entendedor de cinema e já até tentei discorrer sobre o assunto como uma proposta de apresentação para um congresso. Não consegui elaborar o texto por inteiro, mas como se tratava apenas em mostrar as minhas impressões comparativas de um poema do qual eu era familiarizado e que fora traduzido em película, aliado a um bom auxílio financeiro da minha universidade, viajei até o local do evento e expus o que tinha para dizer. Desceram o pau em mim.

Dessa vez não quero fazer comparação alguma. No entanto, nada me proíbe de colocar o meu posicionamento diante o novo longa de Pedro Almodóvar, que se chama A Pele que Habito. Nunca assisti a nenhum filme do diretor que não fosse esse, mas só o fato de ele ter feito lembrar-me de autores que julgo serem os meus favoritos, resolvi fazer de tal filme o meu primeiro alvo de crítica.

Edgar Allan Poe escreveu "O Barril de Amontillado", uma das suas pequenas estórias mais célebres. Logo no primeiro parágrafo, ele prontamente coloca a motivo da sua narrativa: "Afinal, deveria vingar-me. Isso era um ponto definitivamente assentado, mas essa resolução, definitiva, excluía ideia de risco. Eu devia não só punir, mas punir com impunidade. Não se desagrava uma injúria quando o castigo cai sobre o desagravante. O mesmo acontece quando o vingador deixa de fazer sentir sua qualidade de vingador a quem o injuriou".

O que Poe quis dizer com isso? De uma maneira menos elaborada, parafraseio: se um vingador vinga e sai imune, a vingança foi válida. Porém, se o vingador vinga, e quem foi vingado replica a vingança, a vingança inicial não vale, e certamente o triunfo é daquele que cometeu a segunda vingança.

Almodóvar certamente bebeu dessa fonte ao compor sua obra. Mas também existe um pouco do mais famoso escritor brasileiro: Machado de Assim. Machado escreveu o notável conto “O Alienista” e outro não tão famoso chamado “A Sereníssima República”. Ambos narram sobre homens que não medem escrúpulos para conseguirem através da ciência um triunfo pessoal e próprio. Tema que não é nenhuma novidade.

O aspecto vingativo de Poe mais a ciência acima de todas as coisas resultam em A Pele que Habito. Um homem, que movido pelos instintos da vingança e pelo seu conhecimento cientifico, monta o seu Frankstein. Sim, existe também um pouco de Percy Bysshe Shelley. É uma película sinistra, grotesca mas também muitíssimo atraente e bela, é que segundo Rafael Amaral, mostra de forma breve um “homem que insiste em brincar de Deus”.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Primeiras Palavras

Com o coração cheio de entusiasmo, abro o meu blog.

A aparente grosseria que fiz uso como designação do meu espaço não será, de fato, dedicada apenas a maltratar aquilo que não me apetece aos olhos e sentidos. Também falarei daquilo que os padrões convencionais da estética acusam como boas.

O propósito aqui é apenas treinar a escrita e aperfeiçoa-la.