segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Noel Gallagher, sua arma de amor capaz de furar o sol mais Emily Brontë

Uma das coisas mais bonitas de se ver é um casal completamente despojado de amor na mais sereníssima felicidade. Apesar de tal cena fazer brilharem os olhos, principalmente os das meninas, essa não é a forma de sentimento mais doce que pode existir entre duas pessoas. Uma prova disso, pelo menos trazido na ficção, é o clip da música “If I Had a Gun...” (New West Films, 2001), de Noel Gallagher & The High Flying Birds.

O cenário é rural, o motivo é o casamento, os personagens principais são três; um cowboy, uma noiva e o pai da noiva; mais um enredo que de misterioso não tem nada. Entretanto, o que vale, de fato, é a moral da narrativa: a dignidade de um amor paterno capaz de invalidar qualquer parâmetro em virtude da felicidade de sua filha. Não importa o que seja feito por ela e nem a decisão que ela quer tomar, o que é verdadeiramente relevante é ela estar feliz.

Não é nenhuma novidade, na história da humanidade e nem nas diversas manifestações de arte, a figura de pai viúvo dedicar unicamente a sua atenção e carinho a uma filha após o óbito de sua companheira. E aqui cabe um levantamento: qual é a forma e até que ponto esse amor exclusivo é colocado em prática? Será que todas as coisas que uma filha almeja devem ser cedidas em virtudes dos prazeres do mimo e da bajulação?

Se esse for o caso, colocar os prazeres do mimo e da bajulação como virtude primordial da relação entre pai e filha, o amor não seria verdadeiro. A consideração e a estima são colocadas de lado, e o que passa a acontecer não é uma construção de sentimentos, mas sim uma compra, da mesma maneira que se vai ao bar pagar por uma cerveja a uma pessoa que você quer ter como “amigo”.

Essa postura não foi a do personagem do clip. O pai, na sua dura condição, não bajulou a sua filha como desculpa pelo fato de ela não ter mãe. Ele precisou, no entanto, ensinar coisas à filha que só uma mulher seria capaz. E é por essa categoria de assumir a figura de ambos dentro de casa, que a fez compartilhar com ele as suas mais íntimas vontades, as suas dores mais avassaladoras e as suas paixões mais intensas.

E é por isso que ele abre mão do noivo que a filha escolheu na hora da troca de alianças. Ele sabia que a sua cria tinha pelo cowboy o mais puro e verdadeiro sentimento. Que o amor deles era uma arma capaz de furar o sol e derramar sobre eles tudo o que há de mais deleitoso. Ele deixou de lado todas as condições de valor, quer seja financeiro, moral ou estético, em virtude apenas do sorriso da menina.

Esse clip me lembrou de outra narrativa famosíssima da literatura inglesa. Refiro-me a Wuthering Heights (1847), o único romance de Emily Brontë. O motivo de tal semelhança é o casal Catherine e Heathcliff. A razão? Provavelmente o cowboyzinho e a filha do fazendeiro cresceram juntos na propriedade do pai dela, e possivelmente juraram um ao outro a eternidade juntos, assim como os dois personagens da obra inglesa. No entanto, o desfecho apresenta convergências. Aqui, o casal está pronto para abraçar a felicidade e gozar dela. Na novela, apesar da construção de sentimentos desde a infância, o amor é trocado pelo dinheiro.

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